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N° 02/2026·Série Científica SBURS

Atualização Científica

Casos Clínicos em Medicina Sexual e Urologia Funcional: desafios da prática diária do urologista

Resumo do Webinar SBURS – 11 de agosto de 2026

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11 de agosto de 2026

Data do webinar

Medicina Sexual e Urologia Funcional

DEPARTAMENTO

Medicina Sexual e Urologia Funcional

TEMA

Relatório Científico SBURS

DOCUMENTO

O webinar promovido pela Sociedade Brasileira de Urologia – Seccional Rio Grande do Sul reuniu especialistas para discutir situações clínicas frequentes na prática do urologista geral, abordando casos de Medicina Sexual e Urologia Funcional com enfoque eminentemente prático e fundamentado nas principais diretrizes internacionais (EAU, AUA, ISSM e ICS). O objetivo principal foi revisar a tomada de decisão clínica baseada em evidências, enfatizando o raciocínio diagnóstico, a individualização terapêutica e a importância da decisão compartilhada com o paciente.

Introdução

Citrato de clomifeno: preservação da fertilidade e produção endógena de testosterona

Um dos principais pontos do debate foi o manejo do paciente com desejo reprodutivo ainda não completado. Conforme recomendam as diretrizes da European Association of Urology (EAU) e da American Urological Association (AUA), a testosterona exógena é contraindicada nesses pacientes por promover supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal e redução significativa da espermatogênese.

Nesse cenário, o citrato de clomifeno representa uma importante alternativa terapêutica. Como modulador seletivo do receptor de estrogênio (SERM), aumenta a secreção de LH e FSH, estimulando a produção endógena de testosterona e preservando o potencial reprodutivo. Embora sua utilização permaneça off-label, estudos observacionais e revisões sistemáticas demonstram melhora consistente dos níveis séricos de testosterona, dos sintomas clínicos e um perfil de segurança favorável durante o seguimento de médio e longo prazo.

Também foi ressaltada a importância do acompanhamento periódico dos níveis hormonais, incluindo testosterona e estradiol, além da monitorização clínica de possíveis efeitos adversos. O uso do citrato de clomifeno deve sempre ocorrer dentro de um processo de decisão compartilhada, com adequada orientação ao paciente sobre sua indicação e limitações.

Ejaculação precoce

O segundo caso apresentou um paciente jovem com ejaculação precoce desde o início da vida sexual.

Principais pontos discutidos

O painel reforçou que o diagnóstico permanece essencialmente clínico, baseado na história sexual detalhada, no tempo reduzido de latência ejaculatória, na dificuldade de controle ejaculatório e no impacto negativo sobre a qualidade de vida do paciente e do casal.

Também foi enfatizada a importância de distinguir as formas primária, adquirida, situacional e subjetiva da ejaculação precoce, uma vez que essa diferenciação influencia diretamente a abordagem terapêutica. A terapia comportamental foi destacada como componente importante do tratamento, especialmente quando associada à terapia farmacológica.

Entre as opções farmacológicas atualmente disponíveis, a dapoxetina permanece como a medicação com maior nível de evidência para o tratamento sob demanda da ejaculação precoce primária, sendo recomendada pelas diretrizes da EAU e da International Society for Sexual Medicine (ISSM).

Sua farmacocinética, caracterizada por rápido início de ação e curta meia-vida, permite administração aproximadamente uma a três horas antes da relação sexual, promovendo aumento significativo do tempo de latência ejaculatória, melhora do controle ejaculatório e maior satisfação sexual do paciente e do casal.

Outro aspecto destacado durante o webinar foi seu perfil de segurança. Em comparação aos inibidores seletivos da recaptação de serotonina utilizados de forma contínua, a dapoxetina apresenta menor risco de efeitos adversos persistentes, menor impacto sobre libido e função sexual e excelente perfil de tolerabilidade para uso sob demanda.

As evidências atuais também sugerem que a associação entre dapoxetina e terapia comportamental pode produzir resultados superiores aos obtidos com qualquer uma das modalidades isoladamente, favorecendo ganhos sustentados na qualidade de vida.

Dapoxetina: tratamento farmacológico sob demanda de primeira linha

Síndrome da bexiga hiperativa na mulher idosa

A segunda metade do webinar concentrou-se em casos de Urologia Funcional, iniciando pela discussão de uma paciente idosa com urgência urinária, polaciúria e incontinência urinária de urgência.

Principais pontos discutidos

Foi enfatizada a necessidade de excluir causas secundárias, utilizar diário miccional, revisar comorbidades e avaliar o estado cognitivo da paciente idosa antes da definição terapêutica. O painel também reforçou a importância da revisão da carga anticolinérgica das medicações em uso, considerando o potencial impacto cognitivo em pacientes idosos.

A terapia comportamental foi novamente destacada como primeira linha de tratamento, incluindo treinamento vesical, adequação da ingestão hídrica, redução do consumo de cafeína e fisioterapia do assoalho pélvico quando indicada.

  • Preferência por medicamentos com menor potencial de efeitos cognitivos em idosos

  • Utilização racional dos antimuscarínicos

  • Consideração dos agonistas β3-adrenérgicos como alternativa ou terapia combinada em casos selecionados

  • Necessidade de acompanhamento contínuo, com ajustes terapêuticos individualizados

Solifenacina: seletividade M3 vesical e segurança cognitiva

Na escolha da terapia farmacológica, foi amplamente discutida a importância de selecionar medicamentos que conciliem eficácia clínica e segurança, especialmente na população idosa.

Nesse contexto, a solifenacina ocupa posição de destaque por apresentar elevada afinidade funcional pelos receptores muscarínicos M3, predominantes na musculatura detrusora e diretamente envolvidos na contração vesical. Essa seletividade favorece controle eficaz dos sintomas de urgência, frequência urinária aumentada e incontinência urinária de urgência, com menor interferência sobre receptores muscarínicos presentes em outros tecidos.

Outro aspecto amplamente discutido foi seu perfil de segurança. Comparativamente aos antimuscarínicos menos seletivos, particularmente a oxibutinina, a solifenacina apresenta menor potencial de penetração no sistema nervoso central e menor afinidade pelos receptores M1, relacionados à função cognitiva. Essas características tornam a medicação particularmente adequada para pacientes idosos ou com maior risco de comprometimento cognitivo, em concordância com as recomendações atuais das diretrizes da EAU, AUA/SUFU e ICS.

Também foi enfatizado que pacientes com resposta parcial e boa tolerabilidade podem se beneficiar de estratégias como aumento gradual da dose ou associação com agonistas β3-adrenérgicos, sempre mediante reavaliação clínica individualizada e decisão compartilhada.

Sintomas persistentes de armazenamento em homens com HPB

O último caso abordou um paciente em tratamento clínico para hiperplasia prostática benigna que permanecia apresentando sintomas importantes de armazenamento.

Principais pontos discutidos

Principais pontos discutidos

O painel ressaltou que sintomas persistentes nem sempre refletem exclusivamente obstrução prostática, sendo frequente a coexistência de hiperplasia prostática benigna e síndrome da bexiga hiperativa.

Foram discutidos o papel da história clínica, do diário miccional, da urofluxometria, da avaliação do resíduo pós-miccional e da indicação criteriosa da urodinâmica, reservando este exame para situações em que seus resultados possam modificar a estratégia terapêutica.

  • Individualizar a investigação complementar

  • Reconhecer a coexistência de obstrução infravesical e hiperatividade detrusora

  • Evitar exames invasivos quando não houver impacto esperado sobre a decisão clínica

  • Considerar tratamento direcionado aos sintomas de armazenamento antes da indicação cirúrgica em pacientes adequadamente selecionados

Conclusões

O webinar reforçou conceitos fundamentais da prática urológica contemporânea e demonstrou como as recomendações das principais diretrizes internacionais podem ser incorporadas ao atendimento cotidiano do urologista. Entre as principais mensagens destacam-se:

  1. 01.O tratamento deve ser individualizado e centrado no paciente

  2. 02.A decisão compartilhada constitui elemento essencial da prática baseada em evidências

  3. 03.Mudanças de estilo de vida permanecem fundamentais no manejo de diversas condições urológicas

  4. 04.O citrato de clomifeno representa importante alternativa para homens com hipogonadismo funcional e desejo reprodutivo preservado, permitindo aumento da testosterona endógena sem comprometer a fertilidade

  5. 05.A dapoxetina permanece como o tratamento farmacológico sob demanda de maior respaldo científico para pacientes com ejaculação precoce primária, especialmente quando associada à terapia comportamental

  6. 06.A solifenacina constitui uma opção terapêutica eficaz e segura para pacientes com bexiga hiperativa, destacando-se por sua seletividade para receptores M3 vesicais e pelo reduzido potencial de efeitos cognitivos, aspecto particularmente relevante na população idosa

O encontro proporcionou uma atualização científica consistente sobre condições altamente prevalentes na prática urológica, traduzindo recomendações das diretrizes internacionais em aplicações práticas para o consultório, sempre com foco na medicina baseada em evidências, na segurança do paciente e na melhoria da qualidade assistencial.

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